Eu me lembro agora, da época de S. João. Acho que quem mais gostava era o meu pai. Primeiro porque ele passava o dia inteiro fazendo a fogueira caprichosamente, arquitetonicamente, dava gosto ver. Era realmente uma linda fogueira. Em cima do guarda-roupas do quarto da gente ele já tinha comprado uma quantidade exagerada de fogos: bombas de cem, estalos bebês, diabinho, traques no pó de serra (pense na sujeira), mosquitos sem estouros, coqueirinhos (haja tosse no quarto escuro!) chuvinhas e, os fogos que ele mais se empolgava – foguetes! Tomávamos o café da noite, com a mesa repleta de pães, cuscuz, charque, ovos mexidos, bolachas 7 capas (quem conseguia comer sem sujar a mesa inteira?) e o leite da vacaria quentinho. Ansiosos e rápido terminávamos de comer para acender a fogueira, afinal mamãe já estava com o milho verde pronto para depois que as brasas aparecessem, assá-los. Então, já vinha ele, papai, do quintal, na ponta dos pés em direção a porta de entrada, com um litro de querosene numa mão e uma caixa de fósforo marca Olho (que era aquela em que os palitos a gente conseguia acendê-los riscando na calçada) na outra para dar vida à fogueira. Todo mundo na porta, aquela meninada, e o papai sofrendo para acender, mas ele conseguia sempre uma hora e meia depois. E era lindo de se ver o fogo subindo. Daí, ao primeiro pau com brasa na ponta, os fogos tomavam conta da rua e a luz brilhava e enfeitava à noite de S.João... saudades daqueles tempos.
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